À medida que os dias passam e é possível observar a dimensão da catástrofe, o balanço da avalanche que devastou o Nepal e a China na última quarta-feira (26) aumentou ainda mais nesta segunda-feira (31), com mais de 900 mortos e 4.700 desaparecidos.

“Nosso país enfrenta um desastre natural de uma magnitude inimaginável e desoladora”, declarou o primeiro-ministro nepalês Balendra Shah, “mas avançamos com determinação para proteger a vida dos cidadãos”.

Em condições perigosas e sob a ameaça de uma nova inundação, os socorristas intensificam os esforços para tentar resgatar possíveis sobreviventes do mar de lama que sepultou esta região remota do Himalaia.

Cobertos em alguns casos até a cintura em um pântano de lama cinzenta e pegajosa, os socorristas exploram, escavam e continuam rastreando a região em busca de sobreviventes.

“As dificuldades são consideráveis”, resume o chefe adjunto do distrito de Nuwakot, o policial E. Hawadi, ao enumerar os desafios enfrentados por seus homens. “Não há estradas. Todas foram arrasadas pela avalanche”, disse.

Além das vítimas, mais de 2.500 prédios foram destruídos no vale do rio Trishuli, no Nepal, segundo um cálculo da AFP a partir de análises por satélite do observatório europeu Copernicus.

A polícia nepalesa compartilhou a história do resgate milagroso, na sexta-feira, de uma menina de 6 anos. “Nós a encontramos sob os escombros (…) só a cabeça aparecia”, declarou à AFP um dos coordenadores das operações, Bahadur Karki. Ele acrescentou que a criança está fora de perigo.

Apesar dos esforços, as autoridades nepalesas não conseguiram estabelecer contato com mais de 100 operários que acreditam que permanecem presos em um túnel de uma obra na região afetada.

Como um tsunami

Militares, policiais e guias nepaleses trabalham dia e noite nos locais de difícil acesso, auxiliados por especialistas que viajaram da Índia, China e Coreia do Sul.

Hospitalizado na capital nepalesa, Katmandu, um funcionário da usina hidrelétrica Upper Trishuli, Shibu Giri, 44 anos, descreveu à AFP como escapou milagrosamente da tragédia.

“Foi como um tsunami, com um barulho enorme e uma enorme nuvem de poeira”, relatou. “Fugindo, nós seguimos para as partes elevadas (…) Não dava para ver nada, achei que não sairia vivo”.

No lado chinês, as equipes de resgate trabalham com as mesmas dificuldades no coração da zona atingida no Tibete, em particular o posto fronteiriço de Gyirong, cujo edifício foi arrastado pelas águas.

Especialistas e cientistas atribuem a avalanche devastadora de quarta-feira ao colapso parcial de uma enorme geleira, que transformou um rio tranquilo em uma torrente furiosa.

Segundo os balanços oficiais mais recentes, ainda provisórios, foram localizados 919 corpos: 903 do lado nepalês e 16 na vertente tibetana.

O trabalho incessante das equipes, com helicópteros e patrulhas de resgate, permitiu retirar milhares de vítimas da região, mas as autoridades dos dois países continuam sem notícias de quase 5.000 pessoas: 4.247 no Nepal e 546 na China, incluindo centenas de estrangeiros (turistas, peregrinos ou operários).

As autoridades chinesas anunciaram nesta segunda-feira sanções contra 10 pessoas acusadas de divulgar informações falsas na internet sobre a avalanche, mas não especificaram o tipo de punição (multas, dias de detenção ou outras medidas disciplinares).

‘Desastre em curso’

Seis dias após a catástrofe, as famílias dos desaparecidos continuam lotando hospitais e necrotérios em todo o Nepal em busca de informações sobre os parentes.

O caso mais emblemático é o de Bharatpur, no sul do país, onde a força das águas arrastou quase 250 corpos por mais de 100 quilômetros a partir do início do desastre.

Em um necrotério da cidade, os parentes tentam identificar as vítimas em imagens de vídeo, um trabalho longo, difícil e contra o tempo.

Com a unidade lotada de cadáveres, as autoridades começaram a enterrar no domingo (30) algumas vítimas, sem esperar pela identificação, por motivos sanitários.

Os sepultamentos acontecem após a coleta de uma amostra de DNA, explicaram as autoridades, e têm caráter provisório para as vítimas de confissão hindu. As famílias poderão, posteriormente e após uma identificação formal, exumá-los e cremá-los, como estabelece a tradição.

“Muitos corpos foram recuperados e começaram a se decompor”, justificou um funcionário do Ministério das Relações Exteriores, Amrit Bahadur Rai.

O custo da tragédia alcança “bilhões de dólares”, advertiu o governo do Nepal. “É um desastre em curso”, resumiu à AFP Abiodun Banire, do escritório nepalês do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

A catástrofe foi causada pelo colapso parcial de uma geleira, que enviou uma parede de água e destroços rio abaixo, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos.